A História

tricotando_avatarTrago na ponta da língua diversos ditados populares que exemplificam com simplicidade – como todo dito popular – o que uma boa comida pode realizar. Minha avó dizia que “não se pega mosca com vinagre, mas com mel”, numa clara metáfora para espantar o mau humor, se quisermos conquistar alguém.

O dito popular mais corriqueiro talvez seja o clichê machista de que “homem se prende pelo estômago”. Chico Buarque romantizou, musicou e confeitou essa frase em “Com Açúcar, Com Afeto”. Cresci cantando isso. Um tanto porque gosto imensamente de quase tudo que Chico compõe e outro tanto porque fazer o doce predileto pra um afeto ficar em casa me é extremamente familiar. E, quando digo familiar, não me refiro somente à parte machista (e que, infeliz ou felizmente, me cabe), mas pelo carinho que aprendi a dar – e receber – fazendo da culinária um rito de alquimia.

Dona de uma risada farta e fácil, mas de temperamento arredio, não sei direito como demonstrar afeto tátil. Rio e converso muito. Ou desconverso. Desde sempre. Mas há muito percebi que dar carinho não se mede apenas em beijos e abraços, então escrevo. Demais e alucinadamente. E cozinho – muito e com muito prazer. Às vezes escrevo para as pessoas que amo com a desenvoltura de um abraço. Mas, na maior parte do tempo, faço o prato predileto e ofereço como quem manda beijos açucarados. É o afeto à minha moda, o meu jeito de dizer que dediquei tempo e carinho para temperar meus amores. Todos os meus amigos conhecem minha paixão pela gastronomia, mas não sei se sabem que eu uso a minha cozinha para mantê-los por perto.

É e sempre foi nas cozinhas das casas que tive e tenho que me abasteci e retribuí afeto. De filha, marido, irmã, amigos, amigos de amigos, todos produtores de bons papos e cercados de comidinhas improvisadas de última hora – ou elaboradas, quando há tempo. Quando estamos chateados, é com algum belisque ou um jantarzinho aconchegante que desabafamos. Quando estamos alegres, é com felicidade que saboreamos alguma coisa, qualquer coisa, desde que seja pra nos reunir em volta da mesa. E café. Na minha cozinha sempre tem muito café, lugar pra mais um, música e, geralmente, o prato preferido de algum dos presentes, servido sem a menor cerimônia. Foi e é assim que aprendi a dizer aos meus amigos, meus afetos, o quanto são importantes para mim.

Este Caderno é uma maneira de compartilhar as receitas preferidas dos (e com) meus amores – pelo menos alguns deles. É para tentar dizer, através da escrita e da gastronomia – dois dos meus maiores prazeres -, a diferença que cada um deles faz na minha vida.

Todos os pratos que estão aqui descritos eram apenas receitas aleatórias e sem identidade, mas cada uma delas foi se tornando parte de um menu imprescindível, quando se tornaram preferidos por cada pessoa especial pra mim.

Este é meu abraço. Talvez o mais genuíno.

Com açúcar e com afeto,

Claudia Letti

[Tricotando na Cozinha/ Claudia Letti – Rio de Janeiro, 2008 -Todos os direitos reservados]


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