Crônicas

MANDINGA NO MEL

Dona Fininha é conhecida por ter casado tarde e, ainda assim, por causa de uma mandinga que deu errado. Também se conta, até porque não é segredo pra ninguém, que é seu Pedrão o culpado. Ela costureira, ele apicultor aposentado, moram na mesma rua, casa de um em frente a do outro.

Seu Pedrão contava sempre a mesma história: numa noite, quando voltava do bar depois do trabalho, viu que o chão da sua casa tinha tábua solta e a porta que dava para o quintal tinha sumido. De espingarda em punho, foi espiar na escuridão e um gigante começou a se chegar.

O homem era sem medida de tão grande e, sem pestanejar, Seu Pedrão crivou o homenzarrão de chumbo até que a criatura desabou. Seu Pedrão alega que a queda estremeceu o chão, ele escorregou, bateu a cabeça e desmaiou bem do lado do gigante. Quando acordou com o sol batendo na cara, não viu gigante nenhum. Só tinha dor de cabeça, uma ressaca daquelas, umas tábuas e uma porta pra consertar.

Ninguém acredita muito em conversa de bêbado e na cidadezinha onde até hoje nasce mais gente do que parte, não é diferente. A vida foi seguindo como tinha que ser, até que Dona Fininha conheceu o Celso que estava de passagem por ali. O viajante selou o namoro com o primeiro beijo na boca da D. Fininha antes de pegar a estrada de novo, e de novo e de novo.

Foi aí que D. Fininha resolveu que estava mais que na hora de acabar com aquele vai e vem tratar de se casar. Pra garantia, procurou Serena, que espantava vício, atraía dinheiro e trazia – mais do que devolvia – marido e bom partido.

Serena garantiu que Dona Fininha só precisava rezar um terço por sete madrugadas embaixo de uma arvore que tivesse mais idade que a “noiva” e no sétimo dia, enterrar perto dessa árvore uma fotografia sua enrolada no mel, dentro de um lenço do futuro marido. E assim foi feito.

Dona Fininha escolheu o quintal do Seu Pedrão, onde tinha uma arvore que preenchia os requisitos e de onde até mesmo pegou emprestado um bocado de mel. Durante sete noites ela esperava seu Pedrão dormir e, nas madrugadas ia fazer sua reza no pé da arvore.

Pois não deu 3 meses, Celso voltou de viagem e quis casar com Fininha que disse o sim entre risinhos e lágrimas. E não deu nem mais 3 para que o marido fosse dessa pra melhor, pá-pum, sem mais aquelas.

Fininha acordou e descobriu que estava viúva. E na mesma manhã um buraco do tamanho de uma lua se abriu no quintal do Seu Pedrão. Lá no fundo encontraram roupas que, pelo tamanho só poderiam ser de um gigante, e no bolso da calça estava a fotografia de D. Fininha que era puro mel, dentro de um lenço.

Alguns dizem que o Gigante estava procurando Fininha, que era o seu amor, quando foi morto e enterrado pelo Seu Pedrão, que nem lembra que enterrou o gigante por causa da cachaça. Outros, dizem que o gigante acordou com a mandinga pensando que aquela mulher e aquele mel eram pra ele e matou o marido pra ficar com a viúva. Outros ainda dizem que tudo é lenda e que Seu Pedrão inventou essa história como desculpa pra não parar de beber. Dona Fininha não fala palavra. Continua morando na mesma casa e nas madrugadas ainda é vista na janela, espiando o pé da árvore.

Sobre o autor

Claudia Letti

Claudia Letti

Jornalista, Escritora, Chef e Astróloga. Vive no Rio de Janeiro.

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