Hors d’Oeuvres

antes de tudo!

[Luz, Câmera, Ação!]

Este Caderno foi elaborado com um prazer enorme, e me diverti muito enquanto produzia os textos e revia dezenas de cardápios. Mas não contém sequer 1/3 das histórias e receitas que eu gostaria de compartilhar. Algumas eu cortei, tão triviais que são (como o Strogonoff original ou a Costela no Papel Alumínio) – e que poderiam transformar um presente numa leitura enfadonha. Outras exigem ingredientes chatíssimos de encontrar (como a Costela de Porco ao Molho de Xarope de Romã), e o objetivo (além de exibir meus talentos, claro!) é deixar os amigos com vontade de preparar pratos com ingredientes sempre à mão. E, finalmente, deixei de fora a parte dos pães e pizzas, porque exigem tanto tempo quanto paciência no preparo, que eu mesma tenho fases em que transformo minha cozinha numa padaria, alternando com longos períodos em que sequer como pão.

Mas nada disso tem muita importância. O que sinto mesmo é a falta de algumas pessoas da minha vida e que, por um motivo ou outro, não estão comigo nestas páginas artesanais. Como meu irmão, o Dico, que, já maduro, descobriu os prazeres da culinária e prepara uma Picanha na Calota – de pneu de caminhão (sim, é isso mesmo!) -, que me deixa salivando só de lembrar. Meu único e querido irmão, que também faz um quibe maravilhoso, do alto da sua origem italiana. Também não está comigo aqui, sua mulher, Ana, a cunhada boa de cozinha e que sempre repete, a meu pedido, um Filé com Bacon ao Molho de Mostarda, quando vou visitá-los no Rio Grande do Sul. Nunca consegui reproduzir tal iguaria. Assim como nunca consegui reproduzir com fidelidade a Massa com Calabresa e 1001 Outras Coisas, da qual minha mãe se tornou uma especialista. Marina, às vezes, me pede essa massa e, invariavelmente, depois da refeição, me diz que ficou gostosa, mas… não igual à da avó.

Eu poderia continuar citando pessoas e suas receitas saborosas: a Carne de Panela com Noz Moscada da Andréa; a Farofa – que leva de um tudo e o que menos tem é farinha – da Carla Cíntia; o Cheesecake Rápido e delicioso da Elô; o Bolo de Fubá sem Defeito da Laura Helena – a Bugra; a Pipoca Doce e a Cachaça Licorosa de Coco com Abacaxi do sogro Roberto… Mas são todas receitas que não domino e, pelo volume que dariam, não estaria confeccionando um caderno artesanal e sim uma enciclopédia.

[Tá filmando? Mesmo?]

Então quero mandar um beijo para o Fausto, meu melhor amigo, que, além de escutar minhas lamúrias, é cobaia das minhas gororobas sem reclamar jamais. É ele o revisor de qualquer arte literária (sic!) que eu apronte – e com esta aqui não seria diferente. E um beijo pra Katia e pra Marina, por terem gentilmente cedido o tempo dos seus amores para me ajudar nessa brincadeira. Outro beijo enorme para a Clau, que ficou com o trabalho árduo e artesanal…

[Tá filmando ainda? Tem tempo? Ah, então espera! Deixa eu ajeitar o cabelo]

Enfim, sei que estou esquecendo de citar muita gente com suas histórias culinárias e já me penitencio antecipadamente. Vai que este Caderno se torne um best-seller e as pessoas se chateiem comigo. Vou ter de correr este sério risco e prometer mais esmero nas receitas alheias pra poder contá-las em outro Caderno, quiçá um Livro Maravilhosésimo de capa dura e de sucesso internacional.

Portanto, se não gostarem das receitas, guardem o presente assim mesmo. O dia em que eu ficar famosa e adentrar naquele mundo esnobe onde secretárias, agentes e empresários não repassam as ligações, nem deixam as pessoas chegarem perto das celebridades, vocês podem chamar um tablóide e mostrar o quão simplesinhas eram as coisas.

Enquanto esse dia não chega, desejo a todos um bon appétit!

[Tricotando na Cozinha/ Claudia Letti – Rio de Janeiro, 2008 -Todos os direitos reservados]